27/08/15

Novo blog

Decidi descontinuar este blog. Continuarei respondendo a eventuais comentários, mas não postarei nada de novo.

Iniciei um novo blog no Wordpress:

http://www.vineadei.wordpress.com/

Todos são bem vindos.

16/07/15

Orar a Jesus

O Novo Testamento ensina-nos constantemente a orar a Deus Pai. Quando interrogado pelos discípulos sobre como deveriam orar, Jesus ensina: “Quando orardes, dizei: Pai...” (Lc. 11:2), pronunciando a mais famosa oração de toda a Bíblia, seguindo a prática veterotestamentária e judaica de orar exclusivamente a Deus.
Embora a atividade intercessória de Jesus seja explícita (Rm. 8:34; Hb. 7:25), não se vê em toda a Escritura nenhuma menção direta à necessidade de recorrer a Jesus, isto é, louvá-lo, fazer-lhe súplicas ou expressar gratidão em uma oração direta. Não obstante, parece natural orar a Jesus. Além de ser uma prática tradicional e quase universal entre os cristãos, parece ser uma dedução de nossa cristologia: se cremos que Jesus é Deus, por que não expressaríamos nossa comunhão com ele em oração?
É claro que respostas puramente dedutivas ou meramente tradicionais, como essas, têm seus perigos.  Por isso resolvi escrever esse artigo para recordar alguns textos bíblicos em que foram feitas orações diretas a Jesus. A base do argumento é: devemos orar a Jesus porque os primeiros discípulos oravam a Jesus (além do Pai). Dou por suposto que os leitores reconhecem as várias injunções bíblicas sobre a necessidade de imitar o exemplo dos primeiros discípulos.
Separei essas evidências em quatro grupos, mais ou menos de acordo sua natureza, da menos direta à mais direta. Esta não é uma lista exaustiva; é perfeitamente possível que não conste abaixo algum texto importante. Mas creio que a lista é, de certa maneira, decisiva.
Primeiro, os cristãos podem ser reconhecidos como "os que (...) invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo" (I Co. 1:2); “todos os que invocam o teu nome”, isto é, de Jesus (At. 9:14). A expressão grega, epikaleomai, guarda certa ambigüidade, podendo indicar tanto a invocação direta (como em oração) quanto a invocação da autoridade sobre algo (epi = sobre; kaleō = chamar), como em uma bênção e no batismo, em que o nome de Deus é pronunciado sobre uma pessoa.

Em tal categoria entram os textos em que os apóstolos pronunciam bênçãos sobre os leitores, como II Co. 13:14 ou II Te. 2:16,17, em que o nome de Jesus é explicitamente mencionado. Embora a bênção não seja uma comunicação direta com Jesus, certamente é um tipo indireto de invocação. Além disso, há os diversos hinos de louvor a Cristo expressos no Novo Testamento, como aquele de Ap. 5:13.

Segundo, há vários textos em que os primeiros discípulos explicitamente falavam com Cristo após sua ascensão. São comunicações diretas com Cristo; à beira da morte, Estêvão diz “Senhor Jesus, recebe o meu espírito” (At. 7:59), enquanto Ananias expõe o temor de orar por Paulo, recém convertido (At. 9:13,14). Apesar disso, a evidência parece diminuída pelo fato de que essa comunicação é ocasionada por alguma aparição extraordinária de Jesus, e não uma prática constante.
Terceiro, na terceira categoria, entramos no terreno sólido das orações feitas diretamente a Jesus, como uma prática deliberada. Um texto muito explícito é II Co. 12:7-9, lido com atenção:
II CORÍNTIOS 12
7 E, para que não me ensoberbecesse com a grandeza das revelações, foi-me posto um espinho na carne, mensageiro de Satanás, para me esbofetear, a fim de que não me exalte.
8 Por causa disto, três vezes pedi ao Senhor que o afastasse de mim.
9 Então, ele me disse: A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo.

Paulo quase sempre reserva a expressão “Deus” para o Pai, enquanto “Senhor” usa com referência a Jesus (cf. I Co. 8:6). Fica claro que o Senhor, a quem Paulo três vezes orou, é Cristo. Deve-se incluir nessa categoria o Maranata (1Co. 16:22; cf. Ap 22:20), pequena oração aramaica em que se pede ao Senhor por sua vinda.
Quarto, as exortações a orar a Jesus. A mais famosa é João 14:14.
JOÃO 14
13 E tudo quanto pedirdes em meu nome, isso farei, a fim de que o Pai seja glorificado no Filho.
14 Se me pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei.

Em português, a versão Almeida Revista e Atualizada é uma das poucas que trazem o pronome oblíquo me. Sem o pronome, o texto parece conformar-se à prática de orar ao Pai em nome de Jesus, o que o restante do Quarto Evangelho parece confirmar. Entretanto, os mais antigos manuscritos gregos apresentam o pronome, e os críticos textuais argumentam em geral por sua inclusão. Problema semelhante ocorre em At. 8:22. Podemos incluir aqui ainda Ef. 5:19, texto em que se ensina aos cristãos a louvar “ao Senhor”. Se aí o uso segue a prática neotestamentária de geralmente reservar o uso da expressão “Senhor” para Jesus, o texto indica o louvor a Cristo, o que é um modo de oração.
A evidência aponta, no mínimo, não há nada de errado em orar a Jesus (em oposição a orar unicamente ao Pai).

G. M. Brasilino

13/05/15

Lex orandi, lex credendi (contra arminianos e calvinistas)

 Existe um princípio da tradição cristã: lex orandi, lex credendi. Estritamente, seria: a lei de orar é a lei de crer. Eu gosto de traduzi-lo como: a lei do culto é a lei da fé, porque aí o orare (no contexto em que Próspero de Aquitânia o enunciou) não se refere especificamente às orações particulares, mas às orações coletivas e litúrgicas da igreja antiga. Essa lei expressa a coerência que deve haver entre o nosso modo de nos colocarmos diante de Deus (orare) e a fé professada (credere).

Um dos motivos pelos quais eu jamais poderia ser arminiano ou calvinista é a profunda incoerência que há entre cada um desses sistemas e a vida prática. Falharemos miseravelmente se as máximas de nossa vida espiritual forem deduzidas dos princípios do arminianismo ou calvinismo.

Orar pela conversão de outras pessoas é uma das práticas mais antigas. O arminiano normalmente ora para que outras pessoas se convertam, seguindo inclusive o exemplo bíblico (Rm 10:1). Quando o arminiano rejeita a capacidade de Deus em converter efetivamente alguém, mas continua orando pela conversão de uma pessoa, está orando como calvinista. Rejeitou sua doutrina no momento da oração. De fato, conheço um arminiano coerente, que me confessou, em termos semelhantes aos seguintes: “Não oro pela conversão de ninguém, porque sei que a pessoa é quem deve escolher.”

Semelhante ocorre com o calvinista. Que sentido há, para um calvinista, em pedir a Deus por perseverança, se Deus já deu perseverança a todos os convertidos e já a negou a todos os réprobos? Dedutivamente, o calvinismo é um sistema em que o cristão não precisa pedir perseverança a Deus. Existe, sim, ações de graça pela perseverança, mas não se deveria rogar por ela, se se quisesse ser coerente com o calvinismo.

Essa incoerência está expressa magistralmente num ditado comum, usado especialmente por alguns calvinistas: devemos orar como calvinistas (isto é, como se tudo dependesse de Deus) e trabalhar como arminianos (como se tudo dependesse de nós), ou devemos ser calvinistas de joelhos e arminianos de pé, ou qualquer outra variação do mesmo tema. Há aí uma incoerência prática, reconhecida quase que como piada. Esse ditado está correto no sentido de nos mostrar como devemos agir; mas a conseqüência deve ser de que, se queremos ser coerentes, devemos crer não como arminianos nem como calvinistas, mas como outra coisa.


G. M. Brasilino

04/05/15

Abuso das metáforas

 Uma parte essencial da inteligência é a capacidade de perceber conscientemente as semelhanças e as diferenças. Sendo nosso vocabulário limitado diante da imensidade e mutabilidade do mundo, utilizamos as mesmas palavras para se referir a coisas diferentes, tomando por base a semelhança perceptível entre elas; há várias figuras de linguagem responsáveis por classificar esses modos de semelhança.

Podemos dizer que uma montanha é muito alta, e dizer que um determinado pensamento é muito alto; não é difícil perceber que "alto", nos dois casos, não quer dizer exatamente a mesma coisa. É fácil explicar o que é uma montanha muito alta: está provavelmente fora do nosso alcance, será difícil escalá-la. Dizemos que um determinado pensamento é alto por motivos semelhantes: ele é difícil de acompanhar, talvez exija algum treinamento específico, muito esforço, não é para qualquer um. Chama-se tertium comparationis essa semelhança que serve para a comparação figurativa entre duas realidades quaisquer. Na símile, o tertium comparationis é explícito: "fulano é forte como um touro", e a força é o tertium comparationis. Mas se dizemos: "fulano é um touro" (metáfora), o tertium comparationis é (talvez) a força; não o formato corporal, a cor, a inteligência ou qualquer outro atributo do touro.

Um erro comum de interpretação da Escritura está em buscar extrair de alguma metáfora algo que está fora do seu tertium comparationis; extrapola-se o sentido original do texto. Embora aqui se refira a metáforas, esse tipo de extrapolação aparece também com outras figuras de palavras, como a alegoria (entendida como uma narrativa de metáforas) e a símile. Dá-se com essas figuras de linguagem um tipo de abuso semelhante ao das parábolas, condenado por toda a erudição bíblica desde que a obra de Adolf Jülicher foi absorvida: procura-se dizer mais do que o texto diz, procurando um significado por trás de cada detalhe.

No Novo Testamento, é em geral muito fácil identificar o tertium comparationis, porque ele costuma estar explícito. As perguntas a se fazer são: qual é, no contexto, a intenção do autor? O que ele busca demonstrar? O que ele quer atacar? Essas perguntas precisam ser conscientes; costumam ser levadas pouco a sério, e por isso há tantos abusos das metáforas bíblicas. Porque é da natureza da metáfora ser elástica, podendo ser usada, em contextos e situações culturais distintos, para expressar ideias diferentes. A serpente pode ser um símbolo da astúcia, mas também da peçonha!

Se abusarmos das figuras como quisermos, cairemos em milhares de contradições. Um exemplo é o uso calvinista dos textos que falam do velho homem como morto: “E vos vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados,” (Ef 2:1). O calvinista extrai conseqüências que jamais são ditas no próprio texto: o morto não é capaz de tomar decisões, de agir. Portanto não é capaz de decidir se aceita ou rejeita a salvação (e, nessa hora, parece que a parte que diz “em ofensas e pecados” passa a ser lida como se dissesse “por causa do pecado original”).

Mas é claro que há outras figuras que implicam em vida, e não em morte, para o estado anterior à conversão: se nós morremos com Cristo (Rm 6:8), consequentemente estávamos vivos antes. Isso porque “vida” e “morte” não são símbolos sem ambigüidade. Era o propósito de Paulo negar o livre arbítrio quando escreveu o que escreveu? Há algo no texto que faça referência ao livre arbítro? Não e não. A intenção de Paulo era simplesmente tratar sobre as conseqüências de “ofensas e pecados”, a morte, em comparação com a conseqüência da graça, a vida. Não há necessidade de inventar um tertium comparationis que não está em jogo no contexto.

Dois outros exemplos servem: o primeiro é o do templo do Espírito Santo (metáfora), e o segundo é o da vinda como um ladrão (símile).

I. Templo do Espírito Santo: Há dois textos:

I CORÍNTIOS 3
16 Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?
17 Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá; porque o templo de Deus, que sois vós, é santo.

I CORÍNTIOS 6
18 Fugi da prostituição. Todo o pecado que o homem comete é fora do corpo; mas o que se prostitui peca contra o seu próprio corpo.
19 Ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos?
20 Porque fostes comprados por bom preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo, e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus.

Não é improvável que o leitor já tenha visto esses textos serem usados para pregar que o cuidado da saúde é um mandamento, e que tratar a saúde relaxadamente é um pecado.

Há algo nesses dois textos que indique a saúde como tema? Não, absolutamente. No primeiro texto, a conseqüência que Paulo extrai da noção de “templo de Deus” diz respeito à santidade do templo, isto é, ao fato de que o templo é propriedade de Deus (santidade = separação), e que ele guarda essa propriedade. No segundo texto, também se enfoca a santidade do templo, dessa vez em sentido moral: não se pode ser santo e praticar a prostituição (santidade = conduta reta). Esse é o tertium comparationis nos dois textos: a santidade! Portanto, esses dois textos não podem servir de amparo para afirmar absolutamente nada sobre saúde.

Isso não quer dizer que seja correto o descuido para com a saúde. Quer dizer apenas que esses textos não tratam de saúde, como não tratam de uma infinidade de outras coisas.


II. Ladrão de noite: Embora não seja a mais freqüente, é das figuras mais dispersas e características da Igreja primitiva: está nos evangelhos, em Paulo, em uma das cartas gerais e no Apocalipse. Jesus virá como um ladrão de noite. O abuso cometido é usar esse texto para pregar o “arrebatamento secreto”, isto é, a doutrina segundo a qual Jesus levará secretamente para os céus os cristãos fiéis, enquanto o resto do mundo segue a vida aqui na terra, sem ter visto Jesus. Os textos indicam ser esse o tertium comparationis, isto é, o fato de que será uma “vinda secreta”?

MATEUS 24
42 Vigiai, pois, porque não sabeis a que hora há de vir o vosso Senhor.
43 Mas considerai isto: se o pai de família soubesse a que vigília da noite havia de vir o ladrão, vigiaria e não deixaria minar a sua casa.
44 Por isso, estai vós apercebidos também; porque o Filho do homem há de vir à hora em que não penseis.

LUCAS 12
37 Bem-aventurados aqueles servos, os quais, quando o Senhor vier, achar vigiando! Em verdade vos digo que se cingirá, e os fará assentar à mesa e, chegando-se, os servirá.
38 E, se vier na segunda vigília, e se vier na terceira vigília, e os achar assim, bem-aventurados são os tais servos.
39 Sabei, porém, isto: que, se o pai de família soubesse a que hora havia de vir o ladrão, vigiaria, e não deixaria minar a sua casa.
40 Portanto, estai vós também apercebidos; porque virá o Filho do homem à hora que não imaginais.

Qual é o problema do ladrão? Ninguém sabe a hora da sua vinda. Portanto, deve-se estar acordado.

I TESSALONICENSES 5
1 MAS, irmãos, acerca dos tempos e das estações, não necessitais de que se vos escreva;
2 Porque vós mesmos sabeis muito bem que o dia do Senhor virá como o ladrão de noite;
3 Pois que, quando disserem: Há paz e segurança, então lhes sobrevirá repentina destruição, como as dores de parto àquela que está grávida, e de modo nenhum escaparão.
4 Mas vós, irmãos, já não estais em trevas, para que aquele dia vos surpreenda como um ladrão;
5 Porque todos vós sois filhos da luz e filhos do dia; nós não somos da noite nem das trevas.
6 Não durmamos, pois, como os demais, mas vigiemos, e sejamos sóbrios;

Qual é o problema do ladrão? Ele pode surpreender. Portanto, deve-se estar acordado.

II PEDRO 3
3 Sabendo primeiro isto, que nos últimos dias virão escarnecedores, andando segundo as suas próprias concupiscências,
4 E dizendo: Onde está a promessa da sua vinda? porque desde que os pais dormiram, todas as coisas permanecem como desde o princípio da criação.
5 Eles voluntariamente ignoram isto, que pela palavra de Deus já desde a antiguidade existiram os céus, e a terra, que foi tirada da água e no meio da água subsiste.
6 Pelas quais coisas pereceu o mundo de então, coberto com as águas do dilúvio,
7 Mas os céus e a terra que agora existem pela mesma palavra se reservam como tesouro, e se guardam para o fogo, até o dia do juízo, e da perdição dos homens ímpios.
8 Mas, amados, não ignoreis uma coisa, que um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia.
9 O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por tardia; mas é longânimo para conosco, não querendo que alguns se percam, senão que todos venham a arrepender-se.
10 Mas o dia do Senhor virá como o ladrão de noite; no qual os céus passarão com grande estrondo, e os elementos, ardendo, se desfarão, e a terra, e as obras que nela há, se queimarão.

Qual é o problema do ladrão? Acha-se que ele não virá mais, por sua “demora”. Portanto, deve-se guardar a promessa.

APOCALIPSE 3
3 Lembra-te, pois, do que tens recebido e ouvido, e guarda-o, e arrepende-te. E, se não vigiares, virei sobre ti como um ladrão, e não saberás a que hora sobre ti virei.

APOCALIPSE 16
15 Eis que venho como ladrão. Bem-aventurado aquele que vigia, e guarda as suas roupas, para que não ande nu, e não se vejam as suas vergonhas.

Qual é o problema do ladrão? Não se sabe a hora de sua vinda. Portanto, deve-se vigiar!

Note-se: nenhum dos textos realça o fato de que o ladrão não é visto. Todos realçam o fato de que o momento de sua vinda é desconhecido. Certamente há algo de secreto nesses textos; mas o secreto não é o “aparecimento do ladrão, mas o dia e a hora do aparecimento.

Portanto, inventar uma “vinda secreta” nessa metáfora do ladrão é como dizer que Jesus recomenda sermos peçonhentos como serpentes, quando ele manda-nos ser astutos como serpentes; trocou-se o tertium comparationis por outro que abstratamente seria possível para aquele objeto (a serpente pode ser um símbolo de peçonha, o ladrão pode ser um símbolo de furtividade), mas que não foi utilizado. Por si só, a análise desses textos não indica se essa vinda é secreta ou não. O que se indica é que a símile do ladrão não pode ser usada para defender um arrebatamento secreto.

G. M. Brasilino

04/04/15

A Natureza da Profecia


Recentemente encontrei o texto de Ezequiel 26:7-14 numa lista de “profecias bíblicas não cumpridas”. A proposta da lista era descaracterizar os oráculos bíblicos: como as profecias da lista não se cumpriram, estava fatalmente provado que não havia uma revelação de Deus no texto das Sagradas Escrituras. O texto de Ezequiel é um dentre muitos pesos contra as nações: profecias de destruição, em que Deus anuncia um castigo severo a um povo ou a uma cidade, em razão dos seus pecados. Desta vez, era Tiro. Pelas palavras da profecia, Nabucodonosor derrubaria os muros da cidade, mataria seus habitantes, e a cidade “jamais ser[ia] edificada“ (v. 14).

A cidade de Tiro existe até hoje; não foi destruída por Nabucodonosor.

O livro de Deuteronômio fornece dois critérios para o reconhecimento da profecia verdadeira: ela não pode induzir ao pecado (Dt 13:1-3) e deve se cumprir (Dt 18:21,22). Uma profecia que se cumprir realmente, mas leve o povo à idolatria, deve ser reconhecida como falsa profecia, e aquele profeta, como falso profeta. Por outro lado, a profecia de Deus sempre se cumprirá.

O detalhe é que nem sempre a profecia de Deus se cumpre como parece que ela deveria se cumprir. Isso se dá porque a profecia bíblica não é uma predição do futuro. O núcleo essencial da profecia hebréia é o chamamento ao arrependimento, a um retorno à lei de Deus (cf. Pv 29:18). Em geral, os profetas são homens escolhidos por Deus, de qualquer classe social, idade ou gênero (e, às vezes, de fora do povo hebreu), para anunciar ao povo o castigo pelos seus pecados.

MIQUÉIAS 3
8 Eu, porém, estou cheio do poder do Espírito do SENHOR, cheio de juízo e de força, para declarar a Jacó a sua transgressão e a Israel, o seu pecado.

Nesse sentido, a profecia hebréia é um juízo divino sobre a realidade presente; o prenúncio do juízo futuro está diretamente ligado ao pecado atual. Por isso, há na profecia bíblica o que sói chamar “condição implícita”, e que é claramente apresentada por Jeremias, num texto muito lido, mas cujas conseqüências escapam à maioria dos leitores:

JEREMIAS 18 (ARA)
1 Palavra do SENHOR que veio a Jeremias, dizendo:
2 Dispõe-te, e desce à casa do oleiro, e lá ouvirás as minhas palavras.
3 Desci à casa do oleiro, e eis que ele estava entregue à sua obra sobre as rodas.
4 Como o vaso que o oleiro fazia de barro se lhe estragou na mão, tornou a fazer dele outro vaso, segundo bem lhe pareceu.
5 Então, veio a mim a palavra do SENHOR:
6 Não poderei eu fazer de vós como fez este oleiro, ó casa de Israel? – diz o SENHOR; eis que, como o barro na mão do oleiro, assim sois vós na minha mão, ó casa de Israel.
7 No momento em que eu falar acerca de uma nação ou de um reino para o arrancar*, derribar* e destruir*,
8 se a tal nação se converter da maldade contra a qual eu falei, também eu me arrependerei do mal que pensava fazer-lhe.
9 E, no momento em que eu falar acerca de uma nação ou de um reino, para o edificar* e plantar*,
10 se ele fizer o que é mau perante mim e não der ouvidos à minha voz, então, me arrependerei do bem que houvera dito lhe faria.
11 Ora, pois, fala agora aos homens de Judá e aos moradores de Jerusalém, dizendo: Assim diz o SENHOR: Eis que estou forjando mal e formo um plano contra vós outros; convertei-vos, pois, agora, cada um do seu mau proceder e emendai os vossos caminhos e as vossas ações.

Os verbos “arrancar”, “derribar”, “destruir”, “edificar”, “plantar” repetem as palavras do chamado de Jeremias (1:10; cf. 31:28; 42:10; 45:4); referem-se, portanto, aos juízos proféticos, prenunciados pelos profetas e cumpridos por Deus. É claro que, no texto, o “arrependimento” (do bem e do mal que houvera dito que faria) é um antropopatismo: atribui-se a Deus uma característica humana. Ademais, o “mal” e o “bem” realizados por Deus não tem conotação moral, como se Deus pudesse praticar o mal, mas refere-se sempre, nas Escrituras, a algum juízo de Deus em razão do pecado humano (cf. Ex 32:9-14; Jr 21:10; 26:3; 32:42; etc).

Mas a mensagem do texto é clara: Deus anuncia que abençoará uma dada nação; se essa nação se corrompe, Deus não a abençoará. Ou Deus afirma que punirá uma nação pelo seu pecado; se a nação se arrepende, Deus não a punirá. Tanto faz se a condição é explicitamente enuncada pelo profeta (Jl 2:13) ou se o profeta nada diz sobre a possibilidade do arrependimento. O que é dito em Jr 18 vale para todas as profecias. O exemplo clássico disso é a profecia de Jonas.

JONAS 3 (ARA)
1 Veio a palavra do SENHOR, segunda vez, a Jonas, dizendo:
2 Dispõe-te, vai à grande cidade de Nínive e proclama contra ela a mensagem que eu te digo.
3 Levantou-se, pois, Jonas e foi a Nínive, segundo a palavra do SENHOR. Ora, Nínive era cidade mui importante diante de Deus e de três dias para percorrê-la.
4 Começou Jonas a percorrer a cidade caminho de um dia, e pregava, e dizia: Ainda quarenta dias, e Nínive será subvertida.
5 Os ninivitas creram em Deus, e proclamaram um jejum, e vestiram-se de panos de saco, desde o maior até o menor.
6 Chegou esta notícia ao rei de Nínive; ele levantou-se do seu trono, tirou de si as vestes reais, cobriu-se de pano de saco e assentou-se sobre cinza.
7 E fez-se proclamar e divulgar em Nínive: Por mandado do rei e seus grandes, nem homens, nem animais, nem bois, nem ovelhas provem coisa alguma, nem os levem ao pasto, nem bebam água;
8 mas sejam cobertos de pano de saco, tanto os homens como os animais, e clamarão fortemente a Deus; e se converterão, cada um do seu mau caminho e da violência que há nas suas mãos.
9 Quem sabe se voltará Deus, e se arrependerá, e se apartará do furor da sua ira, de sorte que não pereçamos?
10 Viu Deus o que fizeram, como se converteram do seu mau caminho; e Deus se arrependeu do mal que tinha dito lhes faria e não o fez.

Para efeitos do que aqui se discute, tanto faz se a história de Jonas é histórica ou ficcional/ilustrativa, pois seu sentido literal também é claro: a mensagem de Jonas foi apenas de destruição, sem qualquer menção a um arrependimento possível. Mas os ninivitas entenderam a mensagem; entenderam que Deus não estava preso à mensagem enunciada, de modo que ele poderia revogar seu próprio juízo. E foi o que aconteceu.

De fato, é exatamente isso que escandalizou Jonas: a bondade de Deus, em não exercer o juízo profetizado. Esse é o tema do livro do profeta Jonas. Não a fuga do profeta, não o barco em meio à tempestade, não o monstro marinho, nem mesmo a pregação de Jonas e o arrependimento do povo. O tema é a dureza do coração de Jonas (e daqueles para quem o livro de Jonas foi escrito) em não reconhecer a bondade de Deus em cancelar seu próprio juízo. Suas palavras são dramáticas:

JONAS 4 (ARA)
1 Com isso, desgostou-se Jonas extremamente e ficou irado.
2 E orou ao SENHOR e disse: Ah! SENHOR! Não foi isso o que eu disse, estando ainda na minha terra? Por isso, me adiantei, fugindo para Társis, pois sabia que és Deus clemente, e misericordioso, e tardio em irar-se, e grande em benignidade, e que te arrependes do mal.
3 Peço-te, pois, ó SENHOR, tira-me a vida, porque melhor me é morrer do que viver.

Nesse momento, Jonas repete uma fórmula hebraica já conhecida, que expressa a bondade e a severidade de Deus, e que certamente era conhecida dos seus leitores (cf. Ex 34:6,7; Nm 14:18; Dt 5:9,10; Ne 9:17,31; Sl 86:15; 103:8; 145:8; Jl 2:13; Na 1:3). O profeta sabia que, mesmo anunciando o juízo de condenação, Deus iria trazer o bem, e não o mal, sobre os ninivitas, ainda que não houvesse qualquer condição prenunciada. Porque a condição é implícita, como nos faz crer o texto de Jr 18.

Há outros casos, como o sacerdócio da família de Eli (1Sm 2:30), a doença mortal de Ezequias (Is 38:1-5) ou a profecia de Miquéias (3:8-12; cf. Jr 26:17-19). Este último caso é especialmente importante, porque os anciãos da época de Jeremias entenderam que a profecia de destruição, enunciada por Jeremias, era substancialmente idêntica àquela pronunciada antes por Miquéias, e que, tinha também uma condição (implícita): o arrependimento. Como o juízo estava vinculado aos pecados do povo, o juízo desaparecia quando desaparecia o pecado, isto é, quando o povo se voltava a Deus em arrependimento e penitência.

A conseqüência do que se vê em tais textos é que não se deve necessariamente buscar um cumprimento literal para as profecias bíblicas, especialmente quando dizem respeito a nações. Isso pode enfurecer a alguns intérpretes ociosos, como alguns dispensacionalistas, que querem que todas as profecias se cumpram, mas essa fúria não é diferente da de Jonas.

G. M. Brasilino

25/03/15

Jesus morreu na Sexta-Feira

Estamos perto da Páscoa. A comemoração tradicional, a semana santa, gira em torno da última semana do ministério terreno de Jesus, desde sua entrada messiânica em Jerusalém (Domingo de Ramos) até sua ressurreição (Domingo de Páscoa), período precedido da Quaresma e sucedido pelo Pentecostes. É o período mais importante do calendário: comemora-se a morte sacrificial e ressurreição vitoriosa do Salvador.

Quase todo ano acontece a mesma coisa: na Páscoa e no Natal aparece algum espertinho afirmando que aquela data está errada. No Natal, é a negação do dia 25 de dezembro; como a Páscoa não tem data fixa, sendo calculada para cada ano, ataca-se um dos dias da páscoa, que é justamente a sexta-feira. Jesus teria morrido na quarta feira ou na quinta, não na sexta, afirma-se.

Pretendo aqui demonstrar que o dia correto da crucificação é o dia tradicional, a sexta-feira. A crucificação teria a mesma importância, qualquer que fosse o dia em que se realizasse. Quarta, quinta, sexta-feira, tanto faz! O propósito do texto é muito mais o de mostrar um dos muitos equívocos da leitura fundamentalista da Bíblia, que propõe interpretar os textos bíblicos o mais literalmente possível, impondo aos textos uma harmonização rasteira que esconde a variedade de inconsistências que ela mesma cria. Esse desejo de literalidade é, no fim das contas, um desejo de dominar o texto.



A estrutura tradicional


A tabela a seguir representa os principais acontecimentos dos últimos dias de Jesus, contando do dia em cuja noite ele foi traído até o domingo da ressurreição. Para os judeus, a noite de cada dia era considerada também parte do dia posterior, de modo que a guarda do sábado começa na noite da sexta; esquematicamente, a “noite da traição” foi incluída no dia anterior, mas isso não modifica a substância dos fatos.

Foram incluídos apenas os evangelhos sinóticos, visto que no Quarto Evangelho há vários detalhes que complicariam a exposição; de todo modo, como nenhum evangelista escreveu para ser lido juntamente com os demais, qualquer um deles isoladamente conduziria às mesmas conclusões.


MATEUS
MARCOS
LUCAS


DIA 1

Noite da traição
1. Santa Ceia
(26:17-29)
2. M. das Oliveiras (26:30-56)
3. Sinédrio
(26:57-68)
4. Negação
(26:69-75)
1. Santa Ceia
(14:17-25)
2. M. das Oliveiras (14:26-52)
3. Sinédrio
(14:53-65)
4. Negação
(14:66-72)
1. Santa Ceia
(22:14-38)
2. M. das Oliveiras
(22:39-53)
3. Negação
(22:54-65)



DIA 2

Dia da Crucificação

“Dia da Preparação”
(Mc 15:42; Lc 23:54)



1. Pilatos
(27:1-31)
2. Crucificação
(27:32-56)
3. Sepultamento
(27:57-61)


1. Pilatos
(15:1-19)
2. Crucificação
(15:20-41)
3. Sepultamento
(15:42-47)

1. Sinédrio
(22:65-71)
2. Pilatos
(23:1-25)
3. Crucificação
(23:26-49)
4. Sepultamento
(23:50-56a)


DIA 3

“Dia após a preparação”, Mt 27:62



Tumba vigiada por romanos
(27:62-66)



Repouso sabático
(23:56b)

DIA 4

Domingo

“Primeiro dia da semana”
(Mt 28:1; Mc 16:1; Lc 24:1)






Ressurreição
(28:ff)





Ressurreição
(16:ff)





Ressurreição
(24:ff)

Como o dia da Crucificação é o “dia da preparação” (Mc 15:42; Lc 23:54), o dia seguinte é o Sábado, que é o “dia após a preparação” (Mateus 27:62). “Preparação” é a preparação para a guarda do Sábado (que inicia na noite seguinte à sexta-feira).

Indicando-se a sequência correta de dias seria:


5ª Feira
6ª Feira
Sábado
Domingo
Dia

Jesus é crucificado
Jesus está morto
Jesus reaparece
Noite
Jesus é preso
Jesus está morto
Jesus está morto


A tabela indica, obviamente, o período em que Jesus passou morto: o dia do Sábado e as duas noites que o cercam. Seriam, a rigor, um dia e duas noites, contados literalmente. Arredondados os dias da crucificação (pois ainda era dia quando Jesus foi posto na tumba) e o da ressurreição, teríamos três dias e duas noites.



A profecia de Mateus 12:40


Os que negam a sexta-feira como dia da crucificação baseiam-se  exclusivamente — no texto de Mateus 12:40, no qual Jesus anuncia a sua morte.

Mateus XII (NVI)
40 Pois assim como Jonas esteve três dias e três noites no ventre de um grande peixe, assim o Filho do homem ficará três dias e três noites no coração da terra.

O texto obviamente não se adequa ao esquema apresentado logo acima (um dia e duas noites). Por isso, são acrescentados dois dias entre a crucificação e a ressurreição. Assim:


4ª Feira
5ª Feira
6ª Feira
Sábado
Domingo
Dia
Jesus é crucificado
Jesus está morto
Jesus está morto
Jesus está morto
Jesus reaparece
Noite
Jesus está morto
Jesus está morto
Jesus está morto
Jesus está morto


O erro mais óbvio dessa interpretação é esquecer a noite do dia da crucificação, na qual Jesus está morto (indicação em laranja). Jesus morre enquanto ainda é dia. Assim, acrescentar dois dias de nada adianta: são três dias e quatro noites. Peca-se pelo excesso.

Há quem haja proposto uma inserção de apenas um dia, considerando a manhã do domingo como outro dia. Assim, a crucificação teria sido numa quinta-feira:


5ª Feira
6ª Feira
Sábado
Domingo
Dia
Jesus é crucificado
Jesus está morto
Jesus está morto
Jesus reaparece
Noite
Jesus está morto
Jesus está morto
Jesus está morto


Assim, teríamos três dias e três noites. Mas é óbvio que essa interpretação peca pela falta: estritamente falando, temos apenas dois dias e três noites, porque, embora Jesus tenha reaparecido no domingo, ele não “ficou no solo da terra” durante aquela manhã.

Se, como argumentam os defensores da teoria da quinta-feira, o domingo deve ser “arredondado” como uma manhã inteira, o que é bem razoável (como depois veremos), o mesmo princípio deve ser aplicado ao dia da crucificação, pois Jesus foi sepultado antes do cair da noite (para que não haja violação do repouso), e, portanto, teremos quatro dias e três noites! É possível criar uma outra versão da teoria da quinta-feira, arredondando o dia da quinta-feira (em vez do domingo), mas o resultado é o mesmo: teremos que aplicar o mesmo princípio ao domingo, e teremos novamente quatro dias e três noites.

Portanto, qualquer que seja o cálculo que se faça, não é possível conseguir “três dias e três noites”. Falta ou excesso, não há escape.



A teoria dos “dois sábados”


Embora o que foi dito baste para refutar as teorias da quarta e da quinta-feira, um ponto precisa ser tratado, que talvez seja utilizado como argumento. Diante da impossibilidade textual de encontrar “três dias e três noites” explícitos entre as narrativas da paixão e da ressurreição dos evangelhos, os intérpretes fundamentalistas inventaram uma teoria mirabolante: a de que naquela semana havia “dois sábados”, isto é, dois dias de observância religiosa judaica; um seria o sétimo dia comum da semana, o outro seria o sábado especial da Páscoa.

É claro que nada disso é dito no texto; jamais se fala ali de “dois sábados”. Mas o leitor fundamentalista sempre dá um jeito: observando no texto grego o plural da palavra “sábado” (Mt 28:1; Lc 24:1; Jo 20:1), encontra a “prova” dos dois sábado. Para ele, tanto faz se em Mc 16:1, na mesma referência, o sábado está no singular, e, no versículo seguinte, aparece no plural, indicando serem as expressões sinônimas.

Ocorre que o plural de “sábado” no texto grego não indica mais de um sábado. O genitivo plural de sábado (sabbatōn) indica semana. Não havia outra palavra para indicar “semana”. O único modo como os judeus de língua grega poderiam falar do primeiro dia da semana era indicando-o por referência ao sábado (visto não haver, ademais, nomes para os dias da semana); a semana surge do sábado, e não o sábado da semana.

Portanto o que se diz ali é que a semana havia passado, e despontava o novo dia da nova semana. Uma das maiores provas disso está no uso grego de At 20:7, em que ocorre a mesma expressão que o mesmo autor usa em Lc 24:1: tē mia tōn sabbatōn. Não há qualquer motivo contextual para pensar que a mesma expressão, do mesmo escrito, tivesse dois sentidos diferentes. Ademais, o texto fala de somente um repouso, não dois (Lc 23:56b).

Por comparação, ocorre em 1Co 16:2 expressão análoga (kata mian sabbatou), agora no singular, mas com sentido idêntico. O mesmo autor indica um só dia de sábado como “no dia dos sábados” (en tē hēmera tōn sabbatōn), em Lc 4:16 (o mesmo em Jo 20:19; At 13:14; 16:13), demonstrando que a presença do plural de sábado não indica pluralidade de dias, ao contrário do que poderia sugerir nosso costume de chamar o sétimo dia da semana de “Sábado”. Por isso os tradutores corretamente vertem o genitivo sabbatōn ora como “semana”, ora “sábado”, conforme se adequar ao contexto; jamais como “sábados”!



Os demais anúncios da crucificação


Antes de explicar Mateus 12:40, é necessário observar os demais anúncios da morte e ressurreição nos evangelhos sinóticos, além de outros textos relevantes no Novo Testamento.

Marcos apresenta três anúncios da ressurreição, repetidos textualmente em Mateus, em três momentos específicos: a confissão de Pedro, o ministério na Galiléia e a subida para Jerusalém. Lucas apresenta apenas o primeiro e o último prenúncios, que são, na realidade, os mais importantes: o primeiro porque marca o início dos prenúncios e por estar ligado ao desvelamento do “segredo messiânico” com a Confissão de Pedro; o último, justamente porque marca o fim dos prenúncios, aproximando-se Jesus de onde se cumpririam (Jerusalém).

MATEUS
MARCOS
LUCAS
16:21 Desde então começou Jesus a mostrar aos seus discípulos que convinha ir a Jerusalém, e padecer muitas coisas dos anciãos, e dos principais dos sacerdotes, e dos escribas, e ser morto, e ressuscitar ao terceiro dia [tē tritē hēmera].

8:31 E começou a ensinar-lhes que importava que o Filho do homem padecesse muito, e que fosse rejeitado pelos anciãos e príncipes dos sacerdotes, e pelos escribas, e que fosse morto, mas que depois de três dias [meta treis [meta treis hēmeras] ressuscitaria.
9:22 Dizendo: É necessário que o Filho do homem padeça muitas coisas, e seja rejeitado dos anciãos e dos escribas, e seja morto, e ressuscite ao terceiro dia [tē tritē hēmera].


17:22 Ora, achando-se eles na Galiléia, disse-lhes Jesus: O Filho do homem será entregue nas mãos dos homens;
17:23 E matá-lo-ão, e ao terceiro dia [tē tritē hēmera] ressuscitará. E eles se entristeceram muito.
9:31 Porque ensinava os seus discípulos, e lhes dizia: O Filho do homem será entregue nas mãos dos homens, e matá-lo-ão; e, morto ele, ressuscitará ao terceiro dia [meta treis hēmeras].

20:17 E, subindo Jesus a Jerusalém, chamou de parte os seus doze discípulos, e no caminho disse-lhes:
20:18 Eis que vamos para Jerusalém, e o Filho do homem será entregue aos príncipes dos sacerdotes, e aos escribas, e condená-lo-ão à morte.
20:19 E o entregarão aos gentios para que dele escarneçam, e o açoitem e crucifiquem, e ao terceiro dia [tē tritē hēmera] ressuscitará.
10:33 Dizendo: Eis que nós subimos a Jerusalém, e o Filho do homem será entregue aos príncipes dos sacerdotes, e aos escribas, e o condenarão à morte, e o entregarão aos gentios.
10:34 E o escarnecerão, e açoitarão, e cuspirão nele, e o matarão; e, ao terceiro dia [meta treis hēmeras], ressuscitará.
18:31 E, tomando consigo os doze, disse-lhes: Eis que subimos a Jerusalém, e se cumprirá no Filho do homem tudo o que pelos profetas foi escrito;
18:32 Pois há de ser entregue aos gentios, e escarnecido, injuriado e cuspido;
18:33 E, havendo-o açoitado, o matarão; e ao terceiro dia [tē hēmera tē tritē] ressuscitará.

Mateus e Lucas usam a mesma expressão: tē tritē hēmera (ou a variante tē hēmera te tritē, uso atributivo restritivo do adjetivo), um dativo de tempo que significa “no terceiro dia” ou “durante o terceiro dia”. Portanto, não indica algo que acontece após o terceiro dia, mas durante ele. A mesma expressão ocorre em Lc 24:46; At 10:40; 1Co 15:4, todos posteriores à ressurreição.

A expressão usada por Marcos meta treis hēmeras significa “após três dias”. Traduzida assim, ela fortaleceria a posição de que seriam “três dias e três noites literais”. A preferência de Mateus e Lucas por tē tritē hēmera demonstra, na realidade, a superioridade da clareza dessa expressão em relação à usada por Marcos (que geralmente tem um grego pior que os demais evangelistas). De todo modo, essa expressão parece também em Mateus 27:63,64, como sinônima de outra expressão (e portanto também como sinônima das demais expressões utilizadas por Mateus):

MATEUS XXVII (NVI)
62 No outro dia, que era o seguinte ao da Preparação, os chefes dos sacerdotes e os fariseus dirigiram-se a Pilatos
63 e disseram: "Senhor, lembramos que, enquanto ainda estava vivo, aquele impostor disse: ‘Depois de três dias [meta treis hēmeras] ressuscitarei’.
64 Ordena, pois, que o sepulcro dele seja guardado até o terceiro dia [heōs tēs tritēs hēmeras], para que não venham seus discípulos e, roubando o corpo, digam ao povo que ele ressuscitou dentre os mortos. Este último engano será pior do que o primeiro".

É óbvio que, se a função dos guardas era guardar o corpo de Jesus até o terceiro dia (e não até o quarto), “depois de três dias” deve ser entendido como “durante o terceiro dia”. Os guardas teriam de estar lá no momento da “ressurreição” (isto é, o roubo do corpo, segundo aqueles judeus). Do contrário, a guarda seria inútil! Esse sentido de heōs tēs tritēs hēmeras se esclarece pelo uso feito em Lv 19:6,7 (LXX), discutido a seguir.

Assim, nada há nos anúncios da paixão e ressurreição, seja prévios, seja posteriores, que indique “três dias e três noites”. A ressurreição deveria se dar no terceiro dia, não após ele.



A contagem judaica do tempo


Não contamos o tempo do mesmo modo como os judeus do período de Jesus. Definimos o tempo de maneira exata (1 dia = 12 horas de dia + 12 hora de noite = 24 horas), e passamos a contar o tempo a partir de um acontecimento. O mesmo não se evidencia nas Escrituras. Por exemplo:

LEVÍTICO XIX (NVI)
5 "Quando vocês oferecerem um sacrifício de comunhão ao Senhor, ofereçam-no de modo que seja aceito em favor de vocês.
6 Terá que ser comido no dia em que o oferecerem, ou no dia seguinte; o que sobrar até ao terceiro dia [LXX = heōs hēmeras tritēs] será queimado.
7 Se alguma coisa for comida no terceiro dia, estará estragada e não será aceita.

O primeiro dia é aquele em que algo é feito; o dia seguinte não é contado como o primeiro dia (após o fato), mas como o segundo dia (a partir do dia do fato). Portanto, Levítico não conta três dias como “72 horas” (3x24), mas como menos de 48; se o sacrifício ocorresse ao meio dia de hoje, são menos de 48 horas até o raiar do “terceiro dia”, em que as sobras teriam de ser queimadas. O cálculo é fluído. O mesmo se pode evidenciar em Êxodo 19:10,11. Esse modo de contar encaixa-se exatamente em Lucas 24:20,21, que nos conta que, desde a crucificação, o domingo era já o terceiro dia! A prova de que esse tipo de conta ainda era usado no período apostólico é o seu uso explícito em Lucas 13:31,32:

LUCAS XIII
31 Naquela mesma hora, alguns fariseus vieram para dizer-lhe: Retira-te e vai-te daqui, porque Herodes quer matar-te.
32 Ele, porém, lhes respondeu: Ide dizer a essa raposa que, hoje e amanhã, expulso demônios e curo enfermos e, no terceiro dia [tē tritē], terminarei.


Esse tipo de cômputo aparece nos textos do AT que fazem referência explícita a “três dias e três noites”: Et 4:16; 5:1; 1Sm 30:12,13.

ESTER IV (ARA)
16 Vai, ajunta a todos os judeus que se acharem em Susã, e jejuai por mim, e não comais, nem bebais por três dias, nem de noite nem de dia; eu e as minhas servas também jejuaremos. Depois, irei ter com o rei, ainda que é contra a lei; se perecer, pereci.

ESTER V (ARA)
1 Ao terceiro dia, Ester se aprontou com seus trajes reais e se pôs no pátio interior da casa do rei, defronte da residência do rei; o rei estava assentado no seu trono real fronteiro à porta da residência.

O texto de Ester apresenta o paralelo perfeito para com a narrativa da ressurreição, porque, embora apresente “três dias e três noites”, não é isso que literalmente se cumpre, pois tudo se dá “ao terceiro dia”. Semelhante ocorre em 1Sm 30:12, em que “três dias e tês noites” indica, na realidade, apenas três dias de uma seqüência, e não três dias e três noites completos.

Foi escolhida a versão Almeida Revista e Atualizada (ARA) porque outras versões consultadas trazem um sentido distinto do hebraico, que não fala em “após três dias”, mas “no terceiro dia”, marcado pela preposição inseparável “ba”, correspondente a “em” (bayyôm haššelîšî; LXX: en tē hēmera tē tritē).

Não é irrelevante o fato de que somente Mateus apresente os “três dias e três noites”, inexistente no paralelo sinótico:

MATEUS 12:39-42
LUCAS 11:29-32
39 Ele respondeu: "Uma geração perversa e adúltera pede um sinal miraculoso! Mas nenhum sinal lhe será dado, exceto o sinal do profeta Jonas.

29 Aumentando a multidão, Jesus começou a dizer: "Esta é uma geração perversa. Ela pede um sinal miraculoso, mas nenhum sinal lhe será dado, exceto o sinal de Jonas.
40 Pois assim como Jonas esteve três dias e três noites no ventre de um grande peixe, assim o Filho do homem ficará três dias e três noites no coração da terra.
30 Pois assim como Jonas foi um sinal para os ninivitas, o Filho do homem também o será para esta geração.
41 Os homens de Nínive se levantarão no juízo com esta geração e a condenarão; pois eles se arrependeram com a pregação de Jonas, e agora está aqui o que é maior do que Jonas.
31 A rainha do Sul se levantará no juízo com os homens desta geração e os condenará, pois ela veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão, e agora está aqui o que é maior do que Salomão.
42 A rainha do Sul se levantará no juízo com esta geração e a condenará, pois ela veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão, e agora está aqui o que é maior do que Salomão.
32 Os homens de Nínive se levantarão no juízo com esta geração e a condenarão; pois eles se arrependeram com a pregação de Jonas, e agora está aqui o que é maior do que Jonas".

Se Lucas conhecia a referência aos “três dias e três noites” (uma possibilidade, por Lc 1:1-4), o motivo de tê-la deixado de fora é saber que ela seria incompreendida por seus leitores gentios, que é justamente o que ocorre com os criadores da teoria da quarta feira.

Assim, o grande erro da leitura fundamentalista é interpretar a profecia de Mt 12:40 com estrita literalidade, e então aplicar essa literalidade aos fatos, quando o correto seria o contrário: interpretar a profecia à luz do cumprimento indicado pela própria Escritura.


(G. M. Brasilino)